Recordando a Páscoa

by Jose Baptista | April 5th, 2015

Quando a idade avança, o mais natural é vivermos de recordações. E quando estão a celebrar-se as festas pascais, é natural que nos lembremos de como elas eram vividas em Vila Nova no tempo da nossa infância e juventude.

Começava a Quaresma, com a bênção das Cinzas, e a sua imposição na cabeça dos fiéis, para lhes lembrar que somos pó, viemos da terra, e para lá voltaremos. Neste dia de quarta feira de cinzas, era igualmente dia de jejum, como sinal de purificação corporal e moderação na alimentação do quotidiano.

Na tradição juvenil, e fora do âmbito religioso, faziam-se jogos entre os jovens, em que o ganho seria de uma ou duas amêndoas no domingo de Páscoa, para aquele que primeiro mandasse rezar para todo o ano o parceiro do jogo.

Não valia se fosse dentro da Igreja, ou no decorrer da procissão, porque sendo a presença dos dois, obrigatória nos actos religiosos isso traria vantagem ao que á Igreja chegasse primeiro.

Para evitar isso e ganhar as amêndoas, faziam-se autênticas “tocaias”, esperando escondidos á porta de casa ou nos caminhos de passagem obrigatória dos parceiros.

Outra tradição Pascal, era no domingo de Páscoa, o afilhado ir a casa do padrinho, pedir o folar, normalmente de um pão de trigo ou bolo doce. Nesta tradição das relações entre padrinhos e afilhados, o pedir a bênção ao padrinho por parte do afilhado era obrigatório ao longo do ano e sempre que pela primeira vez se cruzassem nesse dia nos seus caminhos.

O afilhado devia ir ao encontro do padrinho, e curvando-se pedia-lhe a a bênção, beijando-lhe a mão, e com o seguinte ritual entre os dois:

Afilhado – Dê-me meu padrinho a sua bênção;
Padrinho – Deus te abençoe e te faça um santo;

Um preceito quaresmal era o da abstinência de comer carne, extensiva a todas as sextas feiras do ano, e a quarta feira de Cinzas, tal que o jejum nas sextas feiras da Quaresma e quarta feira de Cinzas, ou seja moderar a alimentação nesses dias.

Para aliviar o preceito, mas com a contrapartida do sacrifício ser compensado com a esmola, a Igreja instituiu uma BULA, isto é um documento diocesano, que mediante a sua compra os católicos poderiam comer naturalmente a carne durante as sextas feiras fora da Quaresma. Esta postura diocesana, não era bem compreendida por muitos fiéis, pois viam na Bula, uma forma encapotada de pagar imposto para comer carne. O princípio não seria este, visto que a esmola ou a partilha, são instrumentos obrigatórios de vivência cristã, daí que o sacrifício era de escolha livre, ou a abstinência, ou a esmola, que para quem tivesse pouco dinheiro, não deixava de ser também um sacrifício.

Nestas coisas da fé e da religião, os preceitos estão sempre imbuídos de algo sublime, que a serem cumpridos estarão no caminho dos princípios, que as sustentam, não devendo é jamais ser desvirtuados, sob pena de provocarem descrença e murmuração.

A Quaresma por si, deve ser vivida com algum espírito de sacrifício, para que esse tempo aproxime mais os cristãos do sacrifício supremo de Cristo na Cruz, daí caber ao cristão escolher por si as formas mais indicadas de viver este tempo, cabendo á Igreja indicar alguns a título exemplificativo.

No campo da tradição e das práticas da semana santa, esta começava no domingo de Ramos, com a bênção dos mesmos, tendo esta festa analogia com a recepção tida por Cristo quando da sua entrada triunfal em Jerusalém. Estes mesmos Ramos benzidos, seriam depois colocados nos campos no dia 3 de Maio (dia da Santa Cruz) depois de reduzidos a dimensões menores, e como protectores das colheitas .

Na quarta feira fazia-se a procissão aos doentes, que recebiam a Eucaristia em suas casas, seguindo-se na quinta feira santa, a via sacra e a missa comemorativa da última ceia, em que Cristo instituiu a Eucaristia, quando ao partir e distribuir o pão e dar a beber o vinho aos seus amigos discípulos, lhes prometeu que sempre que se reunissem em seu nome e partilhassem o pão e o vinho, estariam a comer e a beber do seu Corpo e do seu Sangue. Esta afirmação vinha no sentido de que ele iria ser morto e portanto fisicamente já não poderia estar com eles, ficando portanto a partilha do pão e do vinho a representar essa presença espiritual depois transformada no sacramento mais importante da Igreja Católica. É uma verdade de fé, que nem todos os cristãos aceitam nestes termos, mas que os católicos celebram desde os primórdios do Cristianismo, baseados nas palavras de Cristo na última ceia.

Para lá da fé neste mistério da Eucaristia, a morte e a ressurreição de Cristo trouxeram também a esperança de que todos os homens criados á sua imagem e semelhança, pelos seus méritos (amai-vos uns aos outros) ou pela graça de Deus (veja-se o perdão ao bom ladrão) poderão ser salvos – vidé também as palavras de Cristo quando disse ” Eu sou a Ressurreição e a Vida, quem acredita em mim não morrerá”.

A sexta feira santa de ontem é igual á de hoje, pois as celebrações litúrgicas centram-se na adoração da Cruz, e na Via Sacra, que relembra o caminho de Cristo para o martírio no Monte Calvário. É portanto um dia de reflexão e recolhimento.

Quanto ao sábado santo daqueles tempos tinham pela manhã a bênção da água e do lume, e o toque do Aleluia, passando posteriormente estas cerimónias para a noite, enquadrando-as mais na proximidade do Domingo, seguindo-se a missa da Ressurreição. As cerimónias são as mesmas só que passaram da manhã para a noite de sábado, dando mais realismo ás palavras bíblicas ” …e Ressuscitou ao terceiro dia “que lidas e interpretadas literalmente, cairiam no domingo.

No domingo de Páscoa, hoje como ontem começa com a procissão da Ressurreição que percorre as ruas da nossa terra, e em cujo percurso se engalanam as janelas como que a dar as boas vindas ao Senhor Ressuscitado, presente segundo a nossa fé naquela hóstia consagrada, colocada na custódia transportada pelo prior.

Segue-se a missa da Ressurreição, tal como ontem, havendo apenas a diferença de a seguir começar a visita Pascal ás casas das famílias, e que deixou depois se fazer.

Estas celebrações pascais traziam por força dessa visita ás nossas casas, muitos membros das famílias ausentes, sendo como que um dia de união familiar. Enquanto se aguardava a Cruz, o prior e os seus colaboradores, cantava-se em plena rua o Aleluia, usando um cântaro que ia passando de mão em mão.

A visita do prior da época rev. padre Fino, tinha sempre momentos peculiares, já que habituou as crianças ás amêndoas que lançava do cimo das varandas das casas, e ria a bom rir vendo-as rebolar-se pelo chão na busca dos apetecidos doces. As crianças faziam assim também parte da tradição da visita Pascal, já que eram presença permanente junto do prior desde o seu início até ao seu fim.

As cerimónias são hoje mais modestas em aparato, mas iguais em termos litúrgicos e renovam sempre os princípios centrais sobre os quais se sustenta a fé dos cristãos. A fé não se explica, ou se aceita, ou se renega, mas para pessoas munidas de alguma sensibilidade e bom senso, não devem ser difíceis de aceitar os princípios que a sustentam, que são belos e sublimes, por terem na solidariedade e na veneração dum Ser criador a sua razão de ser.

Ao falar da Páscoa, não me consigo desligar da minha condição de crente e de cristão, pelo que aos não crentes peço que se fixem apenas nos pormenores relacionados com a Tradição, se os mesmos lhes trouxerem boas recordações dos seus tempos juvenis. No entanto desejo a todos uma Páscoa com saúde, paz e alegria.

José Baptista da Silva

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