NACIONALISMOS, POPULISMOS OU MUDANÇA DE PARADIGMA

by Jose Baptista | February 28th, 2017

Em 29.06.2014 o Papa Francisco numa entrevista ao jornal “El Mensagero “, respondendo à pergunta se o mundo estava a viver uma mudança de época, disse: “Se o mundo estiver realmente a mudar, trata-se duma mudança de cultura, que alimenta a decadência moral na política, e na vida social e financeira”.
A quase três anos de distância estas palavras ganham actualidade, porquanto o mundo está envolvido na maior e mais complexa evolução de sempre, e nem sempre no melhor sentido. Por serem enormes e complexas, as transformações estão a gerar medo e nervosismo nas pessoas, porque não se lhes conhecem as suas reais consequências.
Nos tempos que correm os problemas são maximizados, não existindo qualquer relativismo e bom senso na análise, daí podermos vir a pagar caro o mediatismo desregrado como as questões são abordadas, sendo disso exemplo a nossa classe política e alguma comunicação social.
Estamos a comemorar o centenário da Revolução russa marxista/leninista, que através da ideologia comunista advogava a transformação do mundo, o derrube do capitalismo e um mundo mais igual e justo, sem exploração do homem pelo homem. Esta ideologia contagiou muita gente, especialmente jovens e muitos intelectuais. A mensagem passou bem nos média e durante cerca de seis a sete décadas, conseguiu manter-se na vanguarda, exactamente porque tal como hoje se maximizavam as suas supostas virtualidades, sem que com o mesmo enfâse se lhes apontavam os seus pontos fracos, que desde sempre foram muitos, especialmente no capítulo das liberdades. Foram milhões os que com ou sem culpa formada foram presos, mortos e deportados para centros de reeducação, especialmente o Goulag na Sibéria, que o escritor russo Solljestine celebrizou em livro.
A ideologia marxista/leninista, acabaria por se desmoronar, porque nada se mantém a partir da mentira, da repressão e da falta de liberdades (todas). Os esforços do Papa João Paulo ll, e especialmente a queda do Muro de Berlim, foram também condições essenciais para o fim desta ideologia que ao tempo já não conseguia atraír adeptos, a não ser os ortodoxos, que apesar das contrariedades dos sistemas, aos mesmos se mantinham/mantêm fiéis, porque se recusam a reconhecer as falhas que os críticos lhes apontam, mantendo-se dogmáticos e agarrados aos seus ideais.O mundo ocidental, com a democracia como suporte ideológico, o capitalismo e a livre iniciativa como sistema económico, e com um estado social implementado pelos Estados, especialmente após o final da segunda guerra mundial, conseguiu um progresso, e níveis de vida e de bem-estar, até então jamais atingidos. Este programa ajudou á consolidação da paz e do progresso na Europa ocidental, atraíu para dentro de si, milhões
de cidadãos de outras partes do mundo, tal que uma intensa e/imigração interna que moldou culturas e trouxe benefícios mútuos para todos. No entanto a dinâmica desta realidade, não se ficou pelas fronteiras internas, já que a Europa e os Estados Unidos, detentores dos melhores quadros, das melhores tecnologias, das maiores empresas, e dos maiores fluxos financeiros provocaram através delas enormes transformações mundiais a todos os níveis, expandiram-se e criaram a globalização económica e financeira que gerou deslocalizações massivas de fábricas e empresas especialmente para o Extremo Oriente, onde a abundância de mão de obra disponível e barata, tornaram estas economias super competitivas, tirando assim algum protagonismo aos seus mentores, a falência de muitas empresas europeias e americanas incapazes de concorrer com as economias asiáticas, que eles próprios tinham ajudado a crescer, gerando desemprego e bolsas de pobreza em muitos países que a ela já não estavam habituados, valendo ás pessoas especialmente na Europa, os sistemas de Segurança Social, que se substituiram ás empresas, na sustentabilidade de alguma qualidade de vida, e dos sistemas de educação e saúde globais.
Os custos financeiros cada vez mais acentuados destes sistemas de solidariedade, que ninguém imagina pagar por os considerarem direitos adquiridos, e o aumento da esperança de vida, podem vir a tornar-se insustentáveis nos moldes actuais, até porque as guerras e conflitos em África, e Médio Oriente, tem trazido alguns milhões de refugiados á Europa, que os tem acolhido na sua maioria, e que por via disso mais enfraquece os sistemas de solidariedade vigentes. Esta entrada em massa e com pouco controle de pessoas, de culturas e formas de vida diferentes das existentes na Europa, é mal aceite por muitos sectores da sociedade europeia, devido especialmente ás ideologias políticas e religiosas existentes em grande parte dos países de onde eles são oriundos, e que são causadores das guerras e problemas que obrigam os mesmos a estas deslocações. Elas causam medos e inquietações, e também o radicalismo de muitos políticos e cidadãos europeus contra eles, que são depois aproveitados por partidos nacionalistas, que estão a ganhar muita força política interna prevendo-se mesmo, que venham a ocupar o poder em muitos deles.
Os nacionalismos raramente trazem benefícios aos povos, porque quase sempre e para se protegerem fecham-se, e num mundo fechado, as ideias, o progresso científico e tecnológico definham, daí que se espera que o bom senso venha a imperar, para que com políticas adequadas,a Europa continue a ser a referência civilizacional da humanidade.
A moderação na análise tem que voltar a ser tida em conta, para que os alarmismos, não tomem conta das nossas vidas. Os males do mundo sempre existiram, por vezes com contornos diferenciados. As situações são mutáveis e nada permanece sempre igual, o que é necessário, é que haja equilíbrio analítico, e não se empole somente o que de negativo neles possa existir. Uma verdade é certa, nunca como agora houve tanto progresso económico, tecnológico e científico. Ele estendeu-se a todas as partes do mundo, e em muitos países chamados de emergentes, Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Indonésia, Singapura, México, essas bolhas são bem visíveis. Deles destacou-se a China, que mercê da sua enorme massa humana e da tecnologia posta á sua disposição, pelas grandes empresas multinacionais, que para serem competitivas em muitos mercados ali se instalaram. Os chineses aprenderam depressa as regras capitalistas da produtividade e da concorrência, e assim colocaram os seus produtos em todo o mundo, a preços imbatíveis. A qualidade dos produtos made In China nem sempre é boa, mas sítios onde o poder de compra é reduzido, ela serve as populações.
A China ao manter a política de “um país, dois sistemas” já que política e ideológicamente se diz comunista, mas capitalista em termos económicos e financeiros, alargou ainda a sua influência aos países sub-desenvolvidos de África (Angola é um caso concreto) através de contratos de parceria na construção ou reconstrução das grandes infraestruturas rodo/ferroviárias, barragens, portos e aeroportos, onde são eles (os chineses) os grandes beneficiados, já que vêm equipados inclusivé com mão de obra chinesa, que trabalha sem horário sete dias por semana.
A qualidade nas obras também deixa muito a desejar, mas como os chineses concedem crédito por vezes a longo prazo, e aceitam colaterais de pagamento em matérias primas, como o petróleo, ou mesmo grandes extensões de terra locais, para ali produzirem produtos agrícolas em falta no seu país, para onde depois são exportados, conseguem com isso atingir os objectivos económicos desejados, pois ao manterem-se residentes permanentes, importam da China produtos manufacturados, que devido ao seu baixo preço impedem o aparecimento, ou manutenção das indústrias locais, que vão á falência por falta de viabilidade económica.
A globalização foi assim um presente oferecido á China, e aos países onde é deficitário o cumprimento dos Direitos Humanos, já que os trabalhadores trabalham muito e ganham pouco, embora vivam agora melhor do que, e quando apenas, tinham na agricultura a sua actividade laboral e forma de fraco sustento.
Com regras económicas e sociais tão diferenciadas, são naturais as preocupações de quem tem de concorrer obrigado a cumprir outro tipo de regras, daí talvez se entender a política do novo presidente americano ao diabolizar as relações comerciais com a China e não só, correndo no entanto o risco de estar a ver os problemas apenas dum lado, e a esquecer os benefícios que muitas empresas americanas tiram da globalização.
Chegados a este patamar, é preocupante o presente e incerto o futuro, pelo que todos teremos que estar atentos, ao modo como, as políticas internas vão evoluir, tal como os responsáveis comunitários vão defender e conduzir os destinos dos europeus, e das nações que integram a Comunidade Europeia. Esperemos que a sabedoria e o bom senso imperem, a dinâmica da história faça o seu caminho, e as mudanças naturais e necessárias que venham a ocorrer, sirvam de consolidação e suporte para o que até hoje foi conseguido,em benefício da Europa e por influência dela da Humanidade no seu todo.

Fev.2017

José Baptista då Silva

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