LER E APRENDER (Verdades, utopias, presunções e coisas mais)

by Jose Baptista | May 15th, 2018

Quando se gosta de ler, parece ser natural lerem-se livros em simultâneo, sem a disciplina de terminar a leitura prévia do primeiro e sucedâneos. Lemos e saltitamos na leitura, umas vezes por enfado da narrativa de algum deles, ou porque encontramos mais interesse num segundo, pelo vislumbramento dum título onde previamente antevemos o gozo dum conteúdo interessante, enfim, pelas mais particulares razões que se nos oferecem para assim proceder.
Na Literatura, encontramos nas palavras, todas as respostas de que precisamos, para construir e dar vida ás nossas ilusões, a que tantas vezes damos conteúdo e sentido. Mas, como em tudo, tal qual o artista na construção da sua obra de arte, as nossas obras ficam sempre incompletas, porque lhes encontramos deficiências nos pormenores. No início traçamos o plano, incorporamos os temas, desenvolvemos as ideias, mas a dinâmica do pensamento, vai seleccionando uns e rejeitando outros, e, quando queremos terminar, fica a certeza de que muito mais haveria que apresentar. Assim, os tempos da narrativa, parecem destinados a manter-se num presente sem passado nem futuro, como que nos conduzindo á ideia inata no homem, de se querer perpetuar num presente sem fim, onde a saúde, o bem-estar e a felicidade jamais terminem, e quando o fim se aproximar, ele seja breve e isento de doenças e sofrimento. É uma pretensão utópica, por muito poucos conseguida, mas que todos temos o direito de sonhar e desejar alcançar.
Na riqueza proverbial do nosso vocabulário cultural, é comum dizer-se que “quem se obriga a amar, obriga-se a padecer”, daí se antevendo que não existirá felicidade sem dor. Ou seja, todo o que ama, sofre. Alguns, apresentam como teoria primária para esta (verdade) o acto de nascer, já que uma mãe, para gozar a felicidade de ter um filho nos braços, tem que passar primeiro pela dor e pelo sofrimento da “parição”. E reforçam a argumentação de que essa dicotomia de felicidade e dor, da mãe em relação aos filhos se mantém pela vida fora em plano de igualdade, consoante os sucessos e insucessos, a saúde e a doença dos filhos gerados.
Partindo deste pressuposto de estarmos perante uma evidência de causa e efeito genuína, os homens e mulheres deste mundo, estariam condenados a aceitar como naturais as contingências da vida, fruto dum determinismo de que á partida dificilmente poderiam sair. A realidade, diz-nos que a generalização não faz sentido, já que mesmo que a felicidade e o sofrimento sejam uma realidade na vida de todos nós, existem muitas formas de contrariar a teoria pela positiva, á mercê dos avanços culturais, do conhecimento de si pelo próprio homem, e pela ajuda da ciência que tem tido papel preponderante no conhecimento, tal que no bem-estar social e material dos povos e das gentes, onde os governantes têm o homem e as suas necessidades vitais em primeiro plano e consideração. Apesar disso, e mesmo imbuídos destas certezas e verdades mensuráveis, estará o homem ao alcance e em condições de controlar os seus medos existenciais e contrariar totalmente a teoria em análise ? Parece-nos que não, porque a dor e o sofrimento são aliados naturais na nossa existência onde o amor e a felicidade têm igualmente lugar.
Como em todos os objectivos que traçamos e escolhemos para a vida, apenas terão êxito aqueles em que nos esforçarmos para os alcançar, o amor e a felicidade por serem os bens maiores, devem gozar dessa nossa primazia comportamental, para que os mesmos façam parte em grau suficiente na felicidade possível, mesmo que o sofrimento e a dor também da vida façam parte. Afinal, na história e nas vicissitudes da vida, tudo parece ser relativo, e todas as teorias e reflexões só trarão benefícios aos homens se elas forem aceites, discutidas e estudadas com abertura de espírito, sem dogmas e verdades pré-fabricadas, e no pleno respeito das crenças e opiniões de cada um.
A felicidade individual é de todos, merece esse esforço, mesmo que dela o sofrimento também faça parte.

José Baptista da Silva
Mai.2018

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